336: Alzheimer: Pfizer escondeu que tinha medicamento para prevenir doença

Laboratório farmacêutico desistiu de investir na investigação de um medicamento que poderia ajudar a prevenir a demência que já foi considerada a epidemia deste século. Denúncia é feita pelo jornal norte-americano The Washington Post

Até agora têm falhado todas as tentativas de descoberta de cura para a demência.
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Depois de investigar centenas de milhar de cérebros, uma equipa de investigadores da Pfizer descobriu em 2015 que um dos medicamentos mais vendidos da empresa, o Enbrel, um potente anti-inflamatório usado no tratamento da artrite reumatóide, poderia reduzir o risco de desenvolver Alzheimer em 64%.

A informação é revelada pela edição de hoje do The Washington Post depois de ter tido acesso a documentos internos da empresa. Mas confrontada com a informação a farmacêutica confirmou ao jornal norte-americano ter desistido de continuar o processo de investigação, que exigia mais testes e ensaios clínicos de custo elevado, decidindo, depois de “um grande debate interno”, que não iria divulgar tais resultados.

“O Enbrel poderia prevenir, tratar e retardar a progressão da doença de Alzheimer”, refere um dos documentos a que o The Washington Post teve acesso. Este documento tinha sido preparado por um grupo de investigadores da Pfizer, que o chegou a apresentar a um conselho interno da empresa em Fevereiro de 2018.

Estes investigadores, do departamento de doenças inflamatórias e imunologia da farmacêutica, pediram à empresa para realizar um ensaio clínico com milhares de pacientes, cujo custo estimado era aproximadamente de 71,2 milhões de euros. Mas a Pfizer explicou ao jornal que, após três anos de investigação interna, entendeu que a expectativa de que o dito medicamento poderia impedir a doença de Alzheimer não era afinal assim tão elevada porque a droga não atingia directamente o tecido cerebral.

A decisão de não continuar a investigar foi exclusivamente científica, disse o porta-voz da empresa ao jornal ao mesmo tempo que argumentava que a publicação do resumo das investigações não foi publicada por não cumprir “padrões rigorosos e científicos”.

Segundo recorda o The Whasington Post, a Pfizer decidiu em Janeiro de 2018 não avançar com o ensaio clínico e não publicar os resultados com o Enbrel, precisamente na altura em que anunciou ao mundo que estava a encerrar o seu departamento da área neurológica. Na mesma semana era divulgado que os ensaios clínicos levados a cabo por mais duas farmacêuticas para a potencial cura do Alzheimer tinham fracassado.

É normal que um medicamento desenvolvido para tratar uma patologia acabe por ser usado ​​no tratamento de outra. A Pfizer tem também um caso destes: o viagra foi descoberto e trabalhado para tratar a hipertensão, mas tornou-se num dos maiores sucessos no combate à impotência, dando lucros milionários à empresa.

As investigações incessantes na busca de uma descoberta que permita travar o desenvolvimento ou a cura para o Alzheimer não têm tido sucesso até agora. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima-se que em todo o mundo existam, pelo menos, mais de 47 milhões de pessoas com esta demência, um número que poderá atingir os 75,6 milhões em 2030, triplicando em 2050, podendo atingir os 135,5 milhões de pessoas.

Aliás, segundo a OMS, a doença de Alzheimer assume um lugar de destaque, representando cerca de 60 a 70% de todos os casos de demência. Em Portugal, e como sublinha a associação que representa familiares e amigos de doentes não há um estudo epidemiológico que retrate a real situação do problema, podemos ter como referência os dados da Alzheimer Europe que apontam para cerca de 182 mil pessoas com demência, em 2014.

No entanto, o relatório da OCDE, (“Uma visão da saúde”), publicado a 10 de Novembro de 2017, coloca Portugal como o 4º país com mais casos por cada mil habitantes. A média da OCDE é de 14.8 casos por cada mil habitantes, sendo que para Portugal a estimativa é de 19.9, subindo para mais de 205 mil pessoas, um número que subirá para os 322 mil casos até 2037.

Patente não é exclusiva e não daria lucros à farmacêutica

Neste momento, o Enbrel já não está protegido com uma patente exclusiva, tal como estava o Viagra quando foi descoberto que poderia actuar na disfunção eréctil, por isso o lucro que poderia dar à farmacêutica não era assim tão atractivo.

A doença de Alzheimer foi identificada pela primeira vez em 1906 pelo psiquiatra e patologista alemão Alois Alzheimer. Em países desenvolvidos, é uma das doenças com maiores custos sociais e económicos. Por exemplo, para os cuidadores a doença tem um custo significativo a nível social, psicológico, físico e económico.

O sintoma inicial mais comum é a perda de memória a curto prazo. Muitas vezes, os primeiros sintomas são confundidos com o processo normal de envelhecimento ou manifestações de stresse. Por isso, a OMS alerta cada vez mais para a necessidade de um diagnóstico precoce.

Diário de Notícias
Ana Mafalda Inácio
05 Junho 2019 — 23:09

320: Cuidadores informais reclamam junto ao parlamento estatuto próprio

O parlamento debate esta sexta-feira medidas do Governo e projectos do PSD, CDS e PAN para apoiar os cuidadores informais, cuja associação se manifesta em frente à Assembleia para defender um estatuto próprio.

Manifestação dos cuidadores informais frente ao Parlamento
© RODRIGO ANTUNES/LUSA

A presidente da Associação Nacional dos Cuidadores Informais, Sofia Figueiredo, disse à agência Lusa que “fica aquém” do que reclamam os cuidadores o que a proposta de lei do Governo traz, que são apenas “medidas de apoio” e não um estatuto que cubra “tudo da área laboral, social e saúde”.

“O Governo apresenta medidas, mas precisamos de um estatuto”, afirmou Sofia Figueiredo, criticando o executivo por não ir ao ponto de criar um estatuto, mas também o projecto de lei do PSD, que dá um prazo de 90 dias para a regulamentação das medidas nele preconizadas.

Além da proposta de lei do Governo, serão discutidos esta sexta-feira projectos de lei do PSD, CDS-PP e PAN, todos centrados na ideia de criação de um estatuto, benefícios sociais e fiscais por essa ocupação, regimes laborais especiais e direito a descanso com recurso a unidades de cuidados continuados para a pessoa dependente.

No caso da proposta do Governo, dá-se um prazo de “120 dias” para “identificação das medidas legislativas, administrativas ou outras que se revelem necessárias ao reforço da protecção laboral dos cuidados informais não principais, designadamente à adequação de normas já existentes relativas ao regime laboral que lhes é aplicável”, o que para Sofia Figueiredo significa “deixar tudo para a próxima legislatura”.

O Governo prevê ainda a atribuição de um subsídio de apoio a atribuir pelo “subsistema de solidariedade mediante condição de recursos”, mas Sofia Figueiredo apontou que para esse cálculo são contados “os rendimentos do agregado familiar e não as despesas”.

A associação critica ainda a lógica de a proposta do executivo funcionar através de “projectos-piloto”, que deixam de fora parte do universo dos cuidadores.

Os cuidadores informais queriam que fosse criada uma carreira contributiva para os cuidadores, que prestam assistência a familiares, crianças ou idosos, que precisam de cuidados permanentes, o que os leva a terem de deixar empregos e dedicar quase todo o seu tempo e recursos.

Por não descontarem para a segurança social, os anos passados como cuidadores informais não contam para a reforma, pelo que a associação reclama a criação de “uma carreira contributiva”.

A proposta do Governo, de o cuidador poder aceder ao Regime de Seguro Social Voluntário, em que faz as suas próprias contribuições, não resulta no caso dos “que têm carência económica e que se desempregaram”, porque têm que escolher entre “ter dinheiro para comer ou pagar a contribuição”.

Na convocatória para a manifestação, a associação pede que quem aderir leve balões rosa e azul para representar as crianças de que cuida ou balões roxos, no caso de adultos.

“Nós queremos apelar à criação de um estatuto, que não é uma questão partidária, defendemos que se unam esforços para fazer um estatuto que vá ao encontro das nossas necessidades”, afirmou.

“Já esperámos tempo demais, é tempo de legislar e não de adiar”, reforçou.

Diário de Notícias
Lusa
08 Março 2019 — 11:35