A VULNERABILIDADE HUMANA E O SOFRIMENTO EM FIM DE VIDA, UMA REFLEXÃO BIOÉTICA

Desde o passado dia 6 de Fevereiro– data de publicação do manifesto em favor da despenalização da morte assistida, e eutanásia, em Portugal – fomos invadidos por uma tempestade de notícias (jornais, televisão, revistas, redes sociais) apontadas

como de supremo interesse, pois o documento arroga a “valorização privilegiada do direito à liberdade e do respeito pela autonomia das pessoas doentes, em grande sofrimento e sem esperança de cura.” Perante este valioso argumento (todos reconhecemos a liberdade e a autonomia como direitos fundamentais inalienáveis), somos quase que forçados a assentir, não fosse, contudo, esta ser a alegação para uma prática que, em nosso entender, Grupo de Reflexão Ética da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), é contrária à própria vida.

Assim, como cidadãos, profissionais de saúde, membros do Grupo de Reflexão Ética da APCP e cuidadores que se preocupam e ocupam diariamente com a vida, com a dignidade, liberdade, autonomia e vulnerabilidade daqueles que, em sofrimento, clamam por ajuda, entendemos que toda a discussão em torno desta temática deve centrar-se na reflexão sobre a vida e, nesta, então, sobre o alívio do sofrimento, a promoção da dignidade, a liberdade, a autonomia de quem padece de doença grave, a responsabilidade e a vulnerabilidade no fim da vida.

Sublinhamos que esta é uma discussão entre valores e princípios individuais e, portanto, um assunto que requer ir além da procura de respostas absolutas, ecuménicas e imediatas. É fundamental permitir uma discussão alargada na sociedade e não circunscrevermos aos cuidados de saúde e, consequentemente, a uma discussão centrada nos profissionais de saúde, sob pena de podermos assistir a alterações perversas e perigosas na relação equipa de saúde – pessoa doente em fim de vida.

Consideramos também fundamental, ainda que breve, a reflexão sobre a hegemonia do princípio do respeito pela autonomia e autodeterminação na relação profissional de saúde – pessoa doente, assim como a importância e apropriação dos restantes princípios da ética médica: beneficência, não-maleficência, justiça, vulnerabilidade, dignidade, e integridade. Por fim, parece-nos fundamental identificar algumas estratégias que possam contribuir para um acompanhamento adequado da pessoa em fim de vida e da sua família/pessoas significativas, pois, em jeito de corolário, subscrevendo a afirmação, concordamos na premissa: “é imperioso acabar com o sofrimento inútil e sem sentido”.

A experiência da doença, da fragilidade e do sofrimento em fim de vida evocam a dimensão ontológica do ser humano e reenviam-nos para a condição de vulnerabilidade que é objecto de um princípio ético que requer cuidado para os vulneráveis, nomeadamente, para aqueles cuja autonomia ou dignidade ou integridade podem estar ameaçadas, como é o caso da pessoa em sofrimento no fim da vida.

Cada um de nós – o «eu» existe em relação com um «outro», não existe «eu» independente; logo, o importante é a relação que convoca em nós o dever de responsabilidade (responder ao «outro», à vulnerabilidade do «outro») e de solicitude. A vulnerabilidade da pessoa em fim de vida implica uma resposta dos profissionais, a nossa responsabilidade, a nossa solidariedade e a nossa solicitude. Assim, a solicitude e o cuidado são a consequência do encontro do “eu” com o “outro” (Paul Ricoeur). O cuidar ergue-se, deste modo, numa narrativa individual em dois lugares distintos. O da pessoa que é cuidada e o do cuidador. Estabelece-se, assim, uma relação de necessidade do outro, de partilha, de proximidade, de confiança, de acção, de compromisso, onde ambos os sujeitos – pessoa doente e profissional – cooperam, na medida das suas capacidades (cognitivas, emocionais, legais e em medicina/bioética) para o resultado final pretendido – identificado pelo sujeito cuidado, acolhido e transformado em acção pelo sujeito que cuida.

O cuidar revela, assim, na essência do ser humano, um modo de ser, uma existência de cuidado; nas palavras de BOFF (1999:89)“ não temos cuidado. Somos cuidado. Isto significa que o cuidado possui uma dimensão ontológica que entra na constituição do ser humano. É um modo-de-ser singular do homem e da mulher. Sem cuidado deixamos de ser humanos”. Deste modo, a vulnerabilidade e o cuidar encontram-se como agentes do Ser humano, essência e condição ontológica, numa existência comum. O Ser é vulnerabilidade e é cuidado, portanto, não podendo deixar de Ser, nem vulnerabilidade, nem cuidado, a questão fundamental refere-se a como viver a vulnerabilidade de tal forma que o cuidado seja fonte de protecção e força no respeito, dignidade e valor que a cada Ser se refere?

Por outras palavras, como cuidar em fim de vida para que a pessoa seja capaz de realizar o máximo de valores da sua existência e, sobretudo, para que não esteja em sofrimento intenso e indesejado? A resposta parece-nos evidente e corresponde ao primeiro imperativo ético imposto pela profissão médica, sugerido por Levinas, “acolher a pessoa doente para simultaneamente lutar contra o sofrimento e contra a dor”. Neste sentido, na reflexão que aqui se apresenta importa que a pessoa em fim de vida possa ter acesso aos cuidados de saúde diferenciados onde lhe possam ser oferecidos os meios terapêuticos, técnicos e humanos para o alívio da dor e do sofrimento (físico, emocional, psicológico, social), portanto, que os recursos da sociedade Portuguesa em termos de cuidados em fim de vida possam ser promovidos, difundidos e distribuídos de forma justa e equitativa, garantindo o livre e total acesso a todos os doentes que deles necessitem.

Em suma, que todas as pessoas possam ter acesso a um direito já consagrado por Lei – ter Cuidados Paliativos, e a liberdade de os solicitar à sua equipa de saúde.

1 A solicitude pressupõe uma definição de bem da Pessoa doente – e não apenas do doente (aspectos biomédicos, valores, interesses, expectativas e prioridades) e é uma atitude de disposição contínua para agir.

2 BOFF, Leonardo – Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra. Editora Vozes. Petrópolis, 1999. ISBN 85.326.2162-7. 199Pág

3 Entenda-se, por analogia e extensão do sentido atribuído pelos autores, a profissão médica como a representação das profissões na área da saúde, portanto, profissionais de saúde.

4 HIRSCH, Emmanuel, Entretiens avec le philosophe Emmanuel Levinas, Médicine et Éthique, Cerf, 1990.

5 Lei de Bases dos Cuidados Paliativos, Lei nº52/2012 de 5 de Setembro.

Relembramos, ainda, a possibilidade e direito reconhecidos a qualquer pessoa, através das directivas antecipadas de vontade, traduzidas no seu direito a auto-determinar-se, de declarar antecipadamente a sua vontade «consciente, livre e esclarecida, no que concerne aos cuidados de saúde que deseja receber, ou não deseja receber, no caso de, por qualquer razão, se encontrar incapaz de expressar a sua vontade pessoal e autonomamente». Realçamos, neste ponto, a alínea c) do artigo 2º), na qual pode ser declarada a vontade de «Receber os cuidados paliativos adequados ao respeito pelo seu direito a uma intervenção global no sofrimento determinado por doença grave ou irreversível, em fase avançada, incluindo uma terapêutica sintomática apropriada)».

É importante destacar que, segundo a definição da Organização mundial de Saúde (OMS), os cuidados Paliativos “visam melhorar a qualidade de vida dos doentes e suas famílias, que enfrentam problemas de correntes de uma doença incurável e/ou grave e com prognóstico limitado, através da prevenção e alívio do sofrimento, com recurso à identificação precoce e tratamento rigoroso dos problemas não só físicos, nomeadamente a dor, mas também dos psicológicos, sociais e espirituais”.

Através de um trabalho em equipa interdisciplinar composta por médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, assistentes espirituais e outros profissionais de saúde, os cuidados paliativos: 1) Proporcionam o alívio da dor e outros sintomas geradores de sofrimento; 2) Afirmam a vida e consideram a morte como um processo natural que não a adiantam nem atrasam; 3) Integram as componentes psicológicas e espirituais do cuidar; 4) Oferecem um sistema de suporte para ajudar os doentes a viver tão activamente quanto possível até à morte; 5) Ajudam a família a lidar com a doença do seu ente assim como no luto.

Não podemos nem devemos ser alheios à realidade nacional onde se calcula que apenas 2,9% das pessoas que morrem têm acesso a cuidados paliativos (Ranking mundial de qualidade de morte de 2015 do Economist Intelligence Unit) e em que 62% das mortes ocorrem nos hospitais, onde as equipas intra-hospitalares de cuidados paliativos estão sub-dimensionadas e praticamente não há unidades de internamento de Cuidados Paliativos, parece-nos imprudente falar da despenalização da morte por compaixão ou “morte assistida” como definida no manifesto. E se atendermos ao facto de 50% da população portuguesa manifestar vontade de morrer em casa apesar de serem escassas as equipas de cuidados paliativos domiciliários, parece-nos que antes de falar de eutanásia ou suicídio assistido, as duas formas de “morte assistida” descritas no manifesto, muito temos a fazer para efectivamente “assistir na morte e processo de morrer”, ajudar a “morrer com dignidade” e aliviar o sofrimento dos doentes“ sem Lei 25/2012. Acessível em:

http://www.pgdlisboa.pt/leis/lei_mostra_articulado.php?nid=1765&tabela=leis

The 2015 Quality of Death Index. Ranking palliative care across the world.

The Economist Intelligence Unit, 2015

Preferências e locais de morte em regiões de Portugal em 2010 (Gomes B, Sarmento V, Ferreira P L, Higginson I J)

esperança de cura”

. Não podemos deixar de realçar que o manifesto é aparentemente “compassivo” ao afirmar que “a morte assistida não entra em conflito nem exclui o acesso aos cuidados paliativos”. Neste ponto, importa reforçar que, no referido manifesto, a “morte assistida” é garantida por via da eutanásia ou suicídio assistido, pelo que esta afirmação, em si mesma, não é verdade já que, como descrito anteriormente, os cuidados paliativos afirmam a vida e não antecipam nem adiam a morte sendo, por isso, contrários à dita “morte assistida” quando esta é sinónimo de eutanásia ou suicídio assistido. Importa relembrar ainda que os Cuidados Paliativos, assentes nas boas práticas clínicas, se opõem ao “encarniçamento ou obstinação terapêutica”. Com efeito, estas práticas são identificadas como desvios da legis artis e, portanto, independentemente do contexto, são práticas a corrigir e, denunciar.

Rejeitamos a abordagem do suicídio assistido/eutanásia como um fracasso dos cuidados paliativos e, por isso, queremos, mais uma vez, destacar o facto de acreditarmos nos objectivos, princípios e filosofia dos cuidados paliativos e, portanto, considerarmos fundamental, demarcar e evidencia-los, reafirmando a sua essência e importância para todos os seres humanos.

Como podemos constatar, este é um tema persistente ao longo da história da humanidade; já os Celtas tinham o “hábito” que os filhos matassem os pais quando estivessem velhos e doentes. Na Índia, os doentes incuráveis eram levados até à beira rio, com as mãos atadas e a boca tapada e aí eram atirados.

A discussão acerca dos valores sociais, culturais e religiosos envolvidos nesta problemática têm a sua origem na Grécia antiga com Platão, Sócrates e Epicuro. Estes defendiam a ideia de que o sofrimento na doença justificava o suicídio. Aristóteles, Pitágoras e Hipócrates condenavam o suicídio. A prática da eutanásia e o suicídio assistido têm vindo a sofrer alterações ao longo dos tempos, por todo o mundo, sobretudo ao nível do direito penal. A eutanásia é lícita na Holanda, Bélgica, Colômbia e Luxemburgo. O suicídio assistido está despenalizado na Suíça, é legal nos EUA nos estados de Washington, Oregon, Vermont, New Mexico, Montana e California. Em Portugal ambos são ilegais . Relembramos, conforme reflexão da APCP relativamente ao manifesto, que estas práticas violam os princípios inscritos na Constituição da República Portuguesa e em códigos que regem a conduta de actuação de diferentes profissionais de saúde e do cidadão em geral. Acresce ainda que, segundo a European Association for Relembramos que a Medicina pode “Curar algumas vezes, aliviar quase sempre, mas consolar pode sempre”.

Ver especificidades em:

http://www.bbc.com/news/world-34445715

“A CRP evoca a dignidade humana (artº 1º e 13º), em conformidade com a Declaração Universal de Direitos Humanos (artº 16º). No artº 24º, 25º, 26º e 64º que consagram o direito à vida e o dever de a defender e promover. A vida humana é inviolável. Condena também a pena de morte. No código deontológico da ordem dos médicos que refere a necessidade de respeitar a vida humana, desde o seu início, artigos 47º, 48º, 49º, e 50º . No código deontológico da ordem dos enfermeiros, Artigo 82º (direito à vida e à qualidade de vida); Artigo 87º (Do respeito pelo doente terminal). O parecer do CNECV – Parecer sobre aspetos éticos dos cuidados de saúde relacionados com o final da vida (11/CNECV/95). O Código penal português trata este assunto com muito rigor acentuando a existência de severas penalizações no que diz respeito à prática da eutanásia.”

Ver em:

http://cdn.impresa.pt/efe/684/8198872/Posicao_da_APCP_ -sobre-manifesto-PEut-vfinal.pdf

Palliative Care, num documento recentemente publicado, a prática de eutanásia e/ou suicídio assistido não é considerada parte integrante dos cuidados paliativos.

Permitam-nos também trazer para esta reflexão os dados relativamente ao envelhecimento demográfico da sociedade portuguesa, da solidão, o número de pessoas que vive abaixo dos níveis de pobreza. Estes e outros dados obrigam a um olhar ainda mais rigoroso, pro-activo e imperativo quando discutimos temas como o que aqui nos propomos. De que autonomia e liberdade poderemos dispor? Como estamos a preparar-nos para poder oferecer uma resposta digna, em matéria de cuidados de saúde em fim de vida, a estas pessoas?

Poderemos exercer a nossa autonomia e liberdade de escolha face a estes números e à escassez de recursos? Qual a solução face ao aumento da esperança média de vida e aos avanços permanentes da ciência e da medicina? Espera-se que a evolução e que todo o conhecimento seja utilizado no melhor interesse da sociedade e do Homem, portanto, se conseguimos que a nossa espécie seja o animal mais desenvolvido e que vive mais, importa também que esse tempo de existência seja preenchido de mais vida, com a máxima qualidade, respeito e dignidade ao invés de querermos, intencionalmente terminá-la.

Note-se que, segundo a mais evidente evidência científica, o número de doentes em fim de vida acompanhados por equipas de cuidados paliativos especializadas raramente persistem na sua expressão de vontade de que a sua morte seja antecipada. Mais, as razões invocadas para este desejo persistente estavam associadas a percepções de tempo (estas eminentemente subjectivas e voláteis), a uma necessidade de maior informação acerca do processo de morrer e, não menos relevante, o que estes doentes efectivamente desejavam era que os profissionais de saúde manifestassem a capacidade genuína de escuta activa e de respeito, de modo a possibilitar-lhes comunicar e falar abertamente sobre o assunto. Para estes doentes, tal não era, contudo, sinónimo de que queriam, efectivamente, que o profissional de saúde lhes dói.

Radbruch L, Leget C, Bahr P, Müller-Busch C, Ellershaw J, de Conno F, Vanden Berghe P, on behalf of the board members of the EAPC. Euthanasia and physician-assisted suicide: A white paper from the European Association for Palliative Care.

Palliat Med. First published on November 19, 2015 as:10.1177/0269216315616524.

“Em Portugal a idade média da população de 26 anos, em 1950, para 38 anos, em 2000, e para 41 anos, em 2010, podendo a idade média da população chegar aos 50 anos em 2050, segundo as previsões das Nações Unidas.

In. ROSA, Maria João valente

– O envelhecimento da Sociedade Portuguesa

– Ensaios da Fundação Francisco Manuel

dos Santos.

Há 400 mil idosos a viverem sozinhos ou isolados em Portugal. Na maioria, mulheres. Ler mais em:

http://www.cmjornal.xl.pt/domingo/detalhe/a-solidao-dos-idosos-em-portugal.html

O número de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social aumentou na União Europeia mais de 5%, entre 2008 e 2013. Quase um quarto da população europeia encontra-se nesta situação. Em Portugal a percentagem é maior: 27,4%.

Ver:

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/mais_de_27_dos_portugueses_em_risco_de_pobreza_ou

_exclusao_social.html

antecipasse o fim de vida, causando a morte e dando cumprimento à sua vontade expressa.

Em nosso entender, estes resultados estão em consonância com a posição assumida pela EAPC quando refere que os doentes que expressem este tipo de pedido necessitam, não só do melhor controlo sintomático disponível, como também de um acompanhamento psicológico e espiritual específico e diferenciado, baseado no respeito pessoal e compreensão de uma situação de particular sofrimento e desespero.

Relembramos as palavras de Daniel Serrão ao afirmar: “a vulnerabilidade revela no mundo humano a experiência existencial do sofrimento, motivação fundamental da esperança de «ser cuidado».” O princípio do respeito pela vulnerabilidade evoca duas categorias essenciais da condição humana: finitude e transcendência. Este, em estreita correlação com os princípios da autonomia, da dignidade e da integridade, constitui a base para a reflexão sobre questões éticas suscitados na relação profissionais de saúde – pessoa doente em fim de vida.

Os contextos clínicos onde o maior número de pessoas morre (o deslugar da morte, citando o Padre José Nuno Silva) estão envolvidos de todas as rotinas institucionais, um espaço físico

desconhecido, pessoas estranhas, máquinas, ruídos, longos corredores onde o eco de tantas vozes se revela num silêncio ensurdecedor, os constrangimentos e m termos de recursos materiais, humanos… Não há espaço nem tempo para acolher a unicidade, a individualidade, o respeito pelo Ser que vive os últimos dias da sua vida. É com espanto que verificamos no manifesto a alusão ao princípio do respeito pela autonomia da vontade da pessoa como princípio absoluto e unidireccional. Concordamos, como não poderia deixar de o ser, que a autonomia e a liberdade da pessoa em fim de vida deva ser respeitada e reafirmada, sem, contudo, deixar de recordar as palavras de Michel Renaud quando diz: “o sentido mais rico da liberdade não é o da liberdade de escolha, mas o da liberdade enquanto realização de si mesmo”

Pestinger M, Stiel S, Elsner F, Widdershoven G, Voltz R, Nauck F, Radbruch L. The desire to hasten death: Using Grounded Theory for a better understanding “When perception of time tens to be a slippery slope”. Palliat Med. 2015; 29(8):711-9.

Radbruch L, Leget C, Bahr P, Müller-Busch C, Ellershaw J, de Conno F, Vanden Berghe P, on behalf of the board members of the EAPC. Euthanasia and physician-assisted suicide: A white paper from the European Association for Palliative Care.Palliat Med. First published on November 19, 2015 as doi:10.1177/0269216315616524.

Daniel Serrão – XVIII Encontro Nacional da Pastoral da Saúde

“Nos anos 70, em Portugal, menos de 20% dos doentes morriam nos hospitais. Em 2008, 63% das mortes ocorreram nos hospitais e a “hospitalização da morte” acontece, por vezes, em condições mínimas de respeito pela dignidade e humanidade do Doente em Fase Terminal da Vida (DeFTV) e das famílias.” In. MACHADO, Maria Céu etal. “A morte e o morrer em Portugal, “ Ed. Almedina. Julho de 2011

SILVA, José Nuno

– Morte e o Morrer entre o deslugar e o lugar

– «A Morte e o Morrer entre o deslugar e o lugar, Precedência da antropologia para uma ética da hospitalidade e cuidados paliativos» ed. Afrontamento | Porto 2012 | 478 págs.

“A liberdade de decidir sobre si como corolário da autonomia poderá, então, justificar a prática de actos que comprometam seriamente ou ponham fim à vida?” In. Autonomia e morte, Sérgio Deodato. Disponível em:

http://www.ordemenfermeiros.pt/comunicacao/revistas/roe_20_janeiro_2006.pdf

Deste modo, parece-nos que a autonomia, tal como a liberdade da pessoa em situação de especial vulnerabilidade , está limitada (capacidade emocional, cognitiva, em alguns casos capacidade

legal), portanto, a interpretação desta autonomia de forma absoluta é desajustada, pois a decisão em saúde atendendo à sua natureza (o “objecto” do cuidado é uma pessoa, o “outro”) é sobretudo um processo de deliberação e não pode ser interpretada como: «o doente decide», «o doente é que sabe».

O profissional está vinculado a dar informação, esclarecer, acompanhar, validar, negociar, mas nunca a abdicar da sua responsabilidade numa atitude defensiva e sobretudo não salvaguardando o interesse último da pessoa cuidada – beneficência, evitando qualquer ato que coloque em causa o seu bem-estar e integridade (respeitar o princípio da não -maleficência). Cada decisão em cuidados de saúde diz respeito à prática de um ato que vai repercutir-se no outro, na vida do outro, logo, o profissional, devidamente habilitado, tem o imperativo ético e deontológico de utilizar o seu “poder” (conhecimento científico, técnico e humano) para influenciar positivamente essa vida. Neste sentido, impõe-se que qualquer decisão em matéria de cuidados de saúde (extensível aos cuidados em fim de vida) seja ética, e a função da ética, como todos sabemos, não é buscar uma unanimidade, mas evitar decisões imprudentes.

A hegemonia da autonomia, por oposição ao paternalismo médico, foi uma conquista anglo-saxónica que se ocidentalizou transformando a nossa medicina numa medicina defensiva que está a desvirtuar e a comprometer a qualidade das decisões em cuidados de saúde e, consequentemente, a qualidade de vida daqueles que são cuidados.

A este propósito, entendemos ser necessária uma mudança paradigmática desde de uma autonomia meramente individual para uma autonomia relacional que possa, efectivamente, dar lugar à compaixão, solicitude e solidariedade. A autonomia individual, nesta discussão sobre a vida, deve ser interpretada através da relação dinâmica com o outro, com os outros e com o mundo.

Como já vimos anteriormente, e corroborando as palavras do Padre Vasco Pinto Magalhães, é na relação e encontro com o outro que nos encontramos e (re)descobrimos um sentido, o sentido da nossa existência e para a nossa vida.

RENAUD, Michel– Liberdade e consenso. «Cadernos de Bioética». Coimbra: Centro de Estudos de Bioética. 36

(2004)

“Implica conhecimentos, habilidade e atitudes: Respeito mútuo, humildade intelectual, desejo de enriquecer a própria compreensão dos factos pela escuta do outro.” Diego Gracia

MAGALHÃES, Vasco

– O sentido da vida. «Cadernos de Bioética». Coimbra: Centro de Estudos de Bioética. 30 (2002) .

Cumpre-nos então perguntar, como corolário, como pensar a autonomia da pessoa e a vulnerabilidade num abraço de charneira pela esperança do ser humano em estar vivo até a morte, em ser cuidado, em compreender e rever a sua identidade e sentido da sua vida mesmo no adoecer humano, no sofrimento? A única resposta que nos parece eticamente aceitável e, portanto, humanamente apropriada é o Cuidar e, nesta, os Cuidados Paliativos. Por isso, deixamos como repto que, antes de outras discussões, os Cuidados Paliativos possam ser uma causa nacional com o objectivo de garantir acesso para todos aqueles que deles necessitem. Um outro aspecto fundamental é a formação de todos os profissionais de saúde no sentido de fazerem boas “acções paliativas” e pelo desenvolvimento e disseminação dos Cuidados Paliativos por forma a chegarem precocemente a todos os doentes que sofrem intensamente por doenças que ameaçam a vida (de foro oncológico e não oncológico) e não por matar os doentes que sofrem.

Note-se que, segundo dados do Observatório Português dos Cuidados Paliativos, somente 17% dos cursos conducentes ao exercício de profissões na área da saúde integram uma unidade curricular específica de cuidados paliativos, sendo que, no caso da medicina, somente 3 de 8 faculdades oferece esta referida unidade curricular de modo meramente optativo e, como tal, dependente do livre arbítrio e interesse do estudante.

Em nosso entender, a formação deveria ser integrada na formação inicial de todos os profissionais de saúde (integrar os planos de estudo de todas as universidades e escolas que formam profissionais de saúde).

Terminamos recordando o pensamento e legado de Viktor E. Frankl na sua obra O homem em busca de sentido: “o carácter único e impartilhável que distingue cada indivíduo e dá sentido à sua existência tem tanta importância no trabalho criativo como no amor humano. Quando nos apercebemos da impossibilidade de substituir uma pessoa, isso permite que a responsabilidade que cada homem tem pela sua existência e pela continuidade desta surja em toda a sua magnitude. Um homem que ganha consciência da responsabilidade que tem em relação a um ser humano que espera por ele com afeição, ou ante um trabalho inacabado, nunca será capaz de deitar for a sua vida.”

Lisboa, 24 de Março de 2016

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O Grupo de Reflexão Ética (GRÉtica) da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos

http://www.apcp.com.pt/a-associacao/grupo-de-reflexao-etica.html

Email: gretica@apcp.com.pt

É, efectivamente “imperioso acabar com o sofrimento inútil e sem sentido”!